Machina Mundi | NYC

Machina

'O olhar vem antes das palavras. A criança olha e reconhece antes de poder falar. É o olhar o que estabelece o nosso lugar no mundo circundante; explicamos o mundo com palavras, mas as palavras nunca podem desfazer o fato de que estamos cercados por ele.' John Berger

As primeiras fotografias aéreas, tiradas por Felix Nadar de um balão na década de 1860, marcam o início da emancipação do olhar. Ver o mundo não mais à altura dos olhos, mas através de uma “máquina voadora”, quebra o modelo de perspectiva renascentista. O corpo, agora móvel e flutuante, não é mais amparo à visão. Gradualmente, a terra se transforma em uma superfície plana, onde as fronteiras se confundem e se perdem de vista.

A visão de cima fascina tanto pela beleza das paisagens desveladas quanto pelo sentimento de onipotência que ela inspira. A vista do céu possibilita o distanciamento para percebermos nossa própria insignificância e a relatividade do todo.

É esse afastamento que Claudio Edinger parece buscar em sua fotografias aéreas: a distância que permite a compreensão da intimidade com a cidade, ao mesmo tempo em que preserva suas belezas. Vista de cima, a Nova Iorque de Edinger é única, distinta. Através do foco e o desfoque, técnica conhecida como foco seletivo, o artista revela ao outro o que enxerga a sua fotografia, nos direciona ao seu próprio olhar dando nos a oportunidade de contemplar, ter o instante em ma?os e poder sentir, pensar e criar novas interpretac?o?es e significados para o que aparentemente era incontestável.

As imagens áreas de Nova Iorque há muito tempo fazem parte do nosso imaginário, no entanto, a ótica pela qual Claudio vê a cidade faz com que paisagens tão familiares tornem-se únicas, grandiosas. Ao olharmos suas fotografias, tudo ao redor se dissolve e somos levados ao mundo do belo, do harmonioso e divino. Gaston Bachelard esclarece que imaginação é, antes que a faculdade de formar imagens, a faculdade de deformar imagens fornecidas pela percepção – “se uma imagem presente não faz pensar numa imagem ausente... não há imaginação. Há percepção” 1. Essa imaginação, a capacidade de ressignificar a imagem tornando-a poesia, é fundamental no trabalho de Claudio Edinger.

“Machina Mundi - NYC” é a mescla entre a precisão do fotógrafo ao controlar a máquina e o afeto pela cidade que foi fundamental para sua formação pessoal e fotográfica. De cima Claudio percebe o que está longe e perto, à distância encontra a forma eterna da cidade em que viveu por mais de vinte anos.

1. Gaston Bachelard, o Ar e os sonhos.

Curadoria | Paulo Kassab Jr.



Claudio Edinger | Machina Mundi | NYC

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