Ana Vitória Mussi | Lethe, Mnemosyne

Entre Lethê e Mnemosyne, o Húmus da Imagem

E se, na verdade, a realidade da imagem fosse ignota, desconhecida? A sua natureza dupla sempre ambígua e ambivalente? E sua própria raiz nos levasse a um território enigmático, no qual nenhuma visualidade codificada garantisse nada? Nada fosse seguro ou certo completamente? Não estaríamos então regressando a uma certa matriz imagética, ao reconhecimento de que “a imagem nunca é uma realidade simples” (como diz Jacques Rancière, entre outros). E onde, por outro lado, tudo se junta, se reconcilia, se religa, não havendo separações domésticas, por exemplo, de foto, imagem, suporte, dispositivo, registro? Nessas coordenadas tão abrangentes, intensas e ao mesmo tempo lábeis, inquietantes, se inscreve a poética de Ana Vitória Mussi, desde seu começo no despertar dos anos 1970. Uma artista pioneira que ilustraria, como uma paráfrase, o miniconto do escritor Augusto Monterroso (“Quando despertei, o dinossauro ainda estava ali”), porque, quando apareceu o termo foto-arte décadas depois, a artista já estava ali, fazia muito tempo, inventando seu próprio corpus fotográfico tão híbrido quanto diferenciado.

Poética imersa na exploração do que poderia ser o regresso ao húmus da imagem, a seus fios terra, camadas, às conexões que ampliam a fotografia à visualidade artística e iconográfica de hoje, e, em suma, à procura de um novo lugar próprio como gênero, condição difícil no meio da inflação de visibilidades, imagens midiatizadas etc... Porque toda sua obra, até a infindável produção de hoje, se pauta por essa exploração performativa da imagem, em que ela é tratada até a confluência com o objeto por meio de singulares operações de significação, a criação de um regime de inédita imagética flutuante, porque no fundo sempre se trata de chegar ao inédito, ao inaugural, a essa emoção sentida e cognitiva primigênia que restabeleça a conexão com nossa experiência de seres condenados a criar uma ontologia especular: a pensar com os olhos.

Fotografia que relê toda a sua materialidade histórica (filme, slides, negativos, papel, imaginário) e sua virtualidade digital ou extramaterialidade (técnicas mistas, computador, tridimensionalidade). Assim nos encontramos com oferendas visuais em que a imagem fotográfica se camaleoniza, retorna a seu magma de memória perdida – fotografias e negativos picotados e recortados –, seja da vida pessoal ou da vida social de repórter. Dois trabalhos simbólicos desta mostra, Lethê e Mnemosyne, se colocam no meio-fio da época, quando a adição visual supera a própria narração, e a narração supera o próprio sentido. Agora mesmo a chamada memória digital está falando por nós, mas a maioria das vezes sem valor algum (sabendo que é indiscreto, na contramão, denunciar esta suplantação). Sem dúvida, já estamos no estágio em que não somos capazes de esquecer nem de lembrar, segundo um pensamento crítico de Byung-Chul Han, pois estamos entre dois vazios sem fundo, sem biografia de vida.

Talvez seja importante uma vez mais enfatizar a operação fundamental desta poética de Ana Vitória Mussi, uma proposta diferente para nossa relação com a fotografia, como desloca o lugar desde onde olhamos, em suma, a mudança de nossa mirada. E potenciando seu desejo de ver o invisível, certo fundo substancial, as ressonâncias... Com uma aproximação e distanciamento do universo da visualidade contemporânea que redefine o lugar instigante da fotografia, seu papel crítico como meio poroso, nada teleológico, como fotografia contaminada perto de nossa perplexidade de seres “iconósforos” (portadores de ícones, conforme Gottfried Boehm), que, aspecto importante, constrói uma cultura da mirada, tem a liberdade engajada de dar a ver.

Curadoria | Adolfo Montejo Navas
Data: 04/04/2018 - 12/05/2018